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No candomblé, os orixás abraçam a diversidade

Por Thiago Santos

A discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero ainda provoca manchas, às vezes de sangue, na bandeira colorida que simboliza a comunidade LGBTQI+. Em diversas esferas, como a Religião, a homossexualidade ainda é uma questão vista com muito preconceito e carregada de tabus.

 

Sabe-se que, cada uma das incalculáveis doutrinas religiosas espalhadas pelo mundo, possui seus princípios. São ideologias que não somente amparam os fiéis que se sentem representados por tais pensamentos, como também podem moldar o modo de pensar e se posicionar diante de determinadas discussões.

 

Muitas religiões sustentam um conflito quando o tema é a orientação sexual ou ideologia de gênero. Algumas, mais conservadoras, veem como pecado ou questão mal resolvida. Outras, apesar de não aprovarem abertamente, não fazem condenações. Há também aquelas que acolhem todo e qualquer fiel e que preferem entender as pessoas como elas são, sem preconceitos e julgamentos. É o caso do Candomblé, como consideram Adilson Ty Oxossi, Babalorixá (pai de santo), e Cássio Costa, filho de santo e gay assumido.

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Pai Adilson, como é conhecido, é dono do terreiro Ilê Axé dos Orixás, que fica situado na área central de Petrolina, no sertão pernambucano, há XX anos. O religioso garante que não somente dentro da sua casa, mas na religião em si, não há espaço para esse tipo de discriminação, tendo em vista que, um dos princípios do Candomblé é o respeito à diversidade.

Cássio Costa, 25 anos, diz saber bem o que é ser respeitado dentro da religião. O estudante de Jornalismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Juazeiro, no norte da Bahia, frequenta a casa de Pai Adilson desde os 9 anos. De família predominantemente cristã, Cássio nunca seguiu os passos da família, se considera independente.

 

O estudante diz que seu processo de construção identitária aconteceu de forma natural. “Na verdade, nunca descobri (a sexualidade), sempre dei evidências, fui uma criança diferente. Mas desde sempre tudo muito resolvido na minha cabeça. Sentia atração por garotos e não via problemas nisso”, recorda.

 

A chegada ao Candomblé se deu por meio de amigos. Quando perguntado sobre os motivos que o fizeram permanecer na religião, Cássio é enfático ao dizer que se sentiu tocado e acolhido. Ali percebeu que não enfrentaria problemas em ser quem realmente é.

Há de se considerar que o histórico processo de perseguição aos povos e religiões de matrizes africanas deu abertura para esse amplo acolhimento. Não sendo, portanto, a homossexualidade um empecilho ou um “defeito” que mereça ser categorizado como doença e/ou pecado, sendo passível de criminalização e julgamentos.

 

De origem africana, o Candomblé surge a partir da ideologia que defende que entidades não humanas possuem alma ou espírito, o que se conhece por animismo. É uma religião que, portanto, tem como base, a alma da natureza, e cultua os orixás, ancestrais africanos divinizados. Trazida ao Brasil pelos escravos, é a religião afro-brasileira mais influente do país.

 

Segundo dados do último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) em 2010, pouco mais de 588 mil brasileiros declararam fazer parte da Umbanda, do Candomblé ou de alguma outra religião afro-brasileira – a pesquisa apontou dados separadamente.

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Dentro desses números estão gays, lésbicas, transexuais e travestis. Estão pessoas como Cássio, que viu na religião a possibilidade de ser quem é, sem receios de julgamento. Pessoas que como ele, se sentem libertas para a vida e para a sexualidade: “Eu sou livre. Eu tenho essa característica de liberdade. Então pra mim muito fácil ser eu”, garante.

 

Foto: Thiago Santos

Foto: Thiago Santos

Entre cânticos, danças e as batidas de tambores ecoa a inabalável fé de Pai Adilson. Ecoa também o grito de liberdade de Cássio! 

 

Que os orixás te protejam! Axé para todos!

 

Por Renilson da Silva 

Como algumas igrejas lidam com as pessoas “sexodiversa”?

Se aceitar como gay, lésbica ou bissexual, não é uma tarefa fácil para muitas pessoas. Muitas passam por dificuldades neste processo de construção da sua identidade e chegam a pensar em alternativas que possam contribuir na repulsão de suas vontades. Há quem prefira terapias, mas há também quem veja na religião uma porta de saída para fugir desse processo de se autoconhecer. Isso pode se dá em duas circunstâncias: por vontade própria ou pressão familiar.

 

Para Nadson Rafael, estudante, o processo de “sair do armário”  foi difícil, uma vez que faz parte de uma família que tradicionalmente sempre esteve inserida na Igreja Evangélica Adventista do Sétimo Dia. Ele relata que sofreu pressão, por parte dos próprios pais, que o obrigavam a se relacionar com meninas. “Foi muito complicado. Minha família pregava essa ideia para mim, e eu me impulsionava. Os meus desejos sexuais eram outros. Eu até tentava gostar de meninas, tentava ser o mais masculino possível, forçava a minha natureza”, relata o jovem.

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Foto: Renilson da Silva 

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Foto: Renilson da Silva 

Nadson considera a igreja como um espaço de opressão. Para ele, à igreja, enquanto um lugar que exige que os integrantes se adequem a “padrões”, jamais vai ser um espaço que vai respeitar e abraçar à diversidade.

Luan Vinícius também foi membro da igreja evangélica Adventista do Sétimo Dia. Apesar de considerar que a igreja trouxe grandes contribuições para a sua vida, ele lembra que enfrentou um processo de frustração em relação a sua sexualidade. Durante o período em que esteve na igreja, Luan Vinicius quis ser “transformado”.

 

“Entrei na igreja aos 12 anos de idade, e quando meus desejos sexuais começaram a aparecer, já sentia atração por meninos. Ficava triste em pensar que Deus fez todo o meu grupo de amigos heterossexuais, mas somente eu era gay. Eu sinto muito, mas se Deus um dia me condenar, como a igreja diz, ele está sendo injusto. Não pedi pra ser assim, simplesmente nasci”, desabafou o estudante.

 

Frustrado, o estudante confessa que saiu da igreja por não se sentir à vontade dentro daquele espaço.

Já para Ramon Pereira*, que aos 10 anos começou a frequentar a Igreja Adventista do Sétimo Dia em Petrolina, no sertão pernambucano, são as pessoas que compõem o espaço religioso que torna o ambiente preconceituoso, através de comentários homofóbicos que podem gerar desavenças.

 

“Nem todas as pessoas abominam e discriminam os homossexuais. Em relação a igreja que frequento, houve uma época que estavam espalhando boatos sobre minha vida, conversa de bastidores. E eu não estava sabendo de nada disso. Muitas pessoas falavam comigo normalmente como se nada estivesse acontecendo, mas por trás estavam espalhando essas conversas [que ele era gay]. Isso me chateou bastante, mas muitas pessoas estavam comigo e me apoiaram naquele momento”, confessa.

 

Ramon Pereira diz acreditar que Deus ama todas as pessoas independente de sua sexualiadade. “Deus é amor. Toda forma de amor acho justa. Não sei falar muito sobre isso, mas acredito que a partir do momento em que não mexo com ninguém e vivo minha vida em paz, não tem erro algum, eu vou viver feliz.”

 

O princípios bíblicos e a tradição centenária são os motivos que levam a igreja a manter um pensamento conservador quando se trata das questões LGBTQI+, segundo explica o Pastor Adventista Geovane Melro. O religioso considera que a igreja é um espaço de inclusão, mas discorda que as ideologias sejam modificadas.

 

“Você pode ser gay e frequentar a igreja. A diferença é que existe aquele membro que decidiu praticar as normas da igreja, e aqueles que enfrentam os nossos templos e decidem não praticar. Nós somos inclusivos, mas alguém querer que mude as nossas normas para dá um passo a mais na inclusão, infelizmente tem uma limitação nesse sentido. Entendemos que devemos incluir a todos, mas há um limite entre a inclusão e aceitação. Mas eu vejo a igreja adventista como uma igreja para todos”, explicou.

Mesmo demonstrando sua aceitação em relação ao público LGTBQI+, há igrejas que propõem uma transformação. Ou seja, aceitam esse público, porém espera que os mesmos abidiquem dos seus desejos sexuaais. É o caso da igreja Batista Frutas da Fé que Maria Soares*, moradora da cidade de Juazeiro, no norte da Bahia, frequenta. Lésbica, há cinco anos ela decidiu participar de uma igreja evangélica, que colaborou para que a mesma renunciasse o desejo sexual.

 

Maria Soares afirma que às vezes sente vontade de renunciar ao compromisso com a igreja, mas conta que prefere se manter firme na religião. A cristã considera que Deus tem o poder de controlar o desejo sexual. “Não acredito que exista ex-gay. O que pode acontecer é eu abdicar da minha vontade, e ter uma transformação de fora para dentro a nível de escolhas. Por exemplo, eu escolhi viver na obra da escola, mas eu continuo sendo lésbica, só não pratico”, acrescenta.

 

Já nos Centros Espíritas, este processo é diferente. Pelo menos é o que garante José Eduardo Albuquerque. Segundo ele, “O Espiritismo segue os ensinamentos de Jesus. Busca levar ao ser humano a compreensão de si próprio. Se entendendo como um ser  imortal (o espírito ) e universal. Respeitando o seu livre arbítrio, o ajudando a exercer o seu livre arbítrio sob o prisma do amor próprio e do próximo”, diz o líder religioso.

 

José Eduardo considera que a igreja não pode fazer acepção de pessoas em hipótese alguma, tendo em vista que os ensinamentos asseguram que deve-se acolher todos os seres humanos. “Deus os vê é os ama como seus filhos que se encontram em processo evolutivo. Da mesma forma que todos os demais filhos seus. Não existe distinção aos olhos do Pai”, concluiu.

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